domingo, 7 de novembro de 2010

O ENCONTRO


Acendeu um cigarro. Encostou-se no muro, escondida pelas sombras para que ninguém a visse. E ali, protegida dos olhares curiosos, pôs-se a pensar... Há tempos recusava a encarar a terrível verdade: depois de mais de quatro anos ainda encontrava-se total, e irremediavelmente, apaixonada por ele. Triste constatação a se fazer depois de tanto tempo.

O encontro era inevitável. Não havia como se esconder, a não ser que fugisse as pressas para a Sibéria, mas não se sentia tão disposta assim a enfrentar o frio siberiano. A grande e incontestável verdade é que ela queria. Sim, ela queria.

É claro que jamais admitiria tal insanidade, afinal, quem quer ficar cara a cara com o amor perdido? Mas essa era a razão dos tremores que estremeciam seu corpo de baixo para cima. Ela queria vê-lo, queria estar no mesmo ambiente que ele, respirar o mesmo ar. Queria a chance de tocar, nem que fosse brevemente, sua mão e, no intervalo de poucos segundos, olhá-lo nos olhos, a dizer: ti espero, sempre.

Apagou o cigarro na sola do tênis. Ergueu a cabeça, jogou os cabelos para trás. Inspirou com dificuldade. Se faria mesmo isso, que fosse com o mínimo de dignidade.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

DILMA X SERRA



O segundo turno está chegando e, ao invés de ver os presidenciáveis debatendo propostas, o eleitor está sendo obrigado a acompanhar uma verdadeira guerra entre partidos e candidatos que em nada contribuiu para o debate político, para a democracia e muito menos o ajuda a fazer a melhor escolha. Pensando nisso, o SinergiaK compilou as principais propostas de Dilma Rousseff e José Serra, para que você, eleitor, tenha certeza do que está fazendo.


INFRAESTRUTURA

DILMA - Expansão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) reunindo mais investimentos, tanto do setor público quanto privado, subsidiando assim melhorias em rodovias, portos e aeroportos.


SERRA - Aposta em concessões para as rodovias, ferrovias e aeroportos.


IMPOSTOS

DILMA - Pretende reduzir a zero impostos sobre investimentos, sobre folha de pagamento, mas não deixou claro como irá fazer isso. O ICMS terá uma legislação nacional e não por estado, como é hoje.


SERRA - Pretende alavancar o crescimento diminuindo impostos sobre folha de pagamento e energia elétrica. Irá reduzir impostos sobre a cesta básica, saneamento básico, medicamentos e combustível para ônibus. Implantará o modelo da Nota Fiscal Paulista nos demais estados brasileiros.


POBREZA

DILMA - Fortalecerá o programa Bolsa Família, implantará novos programas sociais, com o objetivo de erradicar a pobreza até 2014.


SERRA - Ampliará a Bolsa Família levando-a para 27 milhões de famílias. Criará o 13º salário para o benefício.


DESEMPREGO

DILMA - Não apresentou propostas para combater o desemprego. Diz que continuará a incentivar o consumo interno e práticas que facilitem a legalização de pequenos negócios.


SERRA - Promete a criação de 20 milhões de empregos até 2020, além disso, tirará 5 milhões de brasileiros do trabalho informal e criará cursos profissionalizantes.


Nem Serra, nem Dilma apresentaram propostas para diminuir a jornada de trabalho ou sobre a flexibilização das leis trabalhistas, que tornaria mais fácil o processo de admissão e demissão de empregados.


EDUCAÇÃO

DILMA - Criação de escolas de ensino técnico em cidades com mais de 50 mil habitantes, expansão de vagas no ensino infantil, construção de 6 mil creches e pré-escolas, 7% do PIB (Produto Interno Bruto) será investido na Educação.


SERRA- Ampliação da rede de ensino técnico, criação de 1 milhão de vagas do Protec (bolsa similar ao ProUni), dois professores em salas de alfabetização.


Nenhum dos candidatos fez propostas claras no que se refere a reajuste salarial para profissionais da Educação. A tendência é que Dilma siga os passos de Lula, oferecendo um complemento aos municípios que provarem não ter condições de oferecer bons salários. Já Serra poderá diminuir o tempo do professor em atividades fora de sala.


SEGURANÇA

DILMA - Expansão das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantado em favelas do Rio de Janeiro, levando o programa para outros municípios.


SERRA - Criação de um ministério específico para a segurança, o que pressupõe um maior envolvimento do governo federal em resolver os problemas nessa área.


SAÚDE

DILMA - Criação de 500 postos de Pronto Atendimento (para casos de emergência), em que a União assumirá 50% dos custos, a outra metade fica a cargo de estados e municípios. Investirá na produção e distribuição de medicamentos.


SERRA -Criação de 154 Ambulatórios de Medicina Especializada e clínica para tratamento de usuários de drogas.


IMPRENSA

Tanto Serra quanto Dilma acreditam que a liberdade de imprensa deve ser mantida


Agora não tem mais desculpa. Leia atentamente as propostas dos presidenciáveis e vote consciente. Politize-se!

Postado inicialmente no blog Sinergia K (http://sinergiak.blogspot.com/), por Gisele Gutierrez

sábado, 9 de outubro de 2010

SERENATA


Dobrou a esquina e seguiu direto ao seu destino antes que a coragem o abandonasse. Há dias vinha ensaiando e não podia esmorecer agora. No fim da rua, dois rapazes com olhos miúdos de sono. Já era tarde.


Olhou para a Lua, procurando pela inspiração quase perdida. Qual não foi sua surpresa, ao descobrir que esta se escondeu atrás das nuvens. Se nem a mãe dos amantes estava por ele, como prosseguir?


Quando deu por si, já estava a porta dela. Violão em punho. Coração aos pulos. Suspirou. Deu meia volta e fugiu.


Na janela, um par de olhos afugentava uma lágrima.


Texto escrito na avaliação de Comunicação e Expressão

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PARA SEMPRE, VINCENT...

Gênio desajustado, homem incompreendido, o artista maldito. Ridicularizado em vida, teve em morte o reconhecimento tão esperado: é aclamado como o maior artista de todos os tempos.


Vincent Willen van Gogh sofreu como ninguém as agruras da vida. A alma do artista, sensível por definição, sofreu de amor, enfrentou a miséria e viu sua obra desvalorizada. Van Gogh vendeu seu primeiro quadro depois de morto. A loucura foi sua mais fiel companheira, a única mulher que talvez o tenha amado de verdade, foi por ela que decepou a própria orelha – a quem deu de presente a uma prostituta; o suicídio, a única saída.

Foi com ele que o expressionismo deu seus primeiros passos, foi com ele que as cores explodiram na tela, mostrando ao mundo sua alma atormentada. "Procuro exprimir as mais terríveis paixões humanas. Quero pintar o retrato das pessoas como eu as sinto e não como eu as vejo", dizia o artista. E ele conseguiu, foi com van Gogh, que a arte se tornou amante da emoção.

Trabalho de História da Arte II - EXPRESSIONISMO. Texto de Gisele Lourenço. Narrado por Rogerio Calamante

sábado, 28 de agosto de 2010

FOLHAS VERDES

Mal sabia ele o que estava para acontecer. Provavelmente se soubesse não teria nem se levantado da cama naquele dia fatídico. Mais tarde, ao se lembrar do ocorrido, estremeceria a tal ponto que se sentiria doente.

Tudo começou quando chegou ao escritório de contabilidade onde trabalhava há mais de dez anos e encontrara a segunda gaveta de sua mesa aberta. Não, não estava apenas entreaberta, estava escancarada, mostrando a quem quisesse ver o seu conteúdo. Estarrecido aproximou-se e, com medo do que pudesse não encontrar, inspecionou seu conteúdo. A princípio não sentiu falta de nada. Foi quando, sob um olhar mais atento, percebeu que as folhas verdes, em que escrevera na semana passada, não estavam no fundo da gaveta, lugar a que foram relegadas depois do acesso de fúria.

Ele sempre fora assim, um homem de poucas palavras, além de não ter boca para nada. Engolia os sapos da vida com resignação paciente, algo que na verdade lhe fazia mais mal do que bem. A única coisa que fazia sentido para ele eram os números, a quem se dedicava, tal como um amante atencioso, por toda sua vida. Após um casamento arruinado e anos de terapia sem conseguir os resultados esperados, que seria literalmente soltar o verbo, foi apresentada a ele a única solução que talvez lhe trouxesse um pouco de alento e menos dores estomacais: escrever. Escrever tudo que gostaria de dizer mas que lhe faltavam palavras para dar fim a sua agonia.
E assim, desde esse dia, deu-se a escrever sobre todo e qualquer ocorrido que lhe chateasse. Escrevia injúrias sobre o síndico, o porteiro do prédio, a cachorra histérica da vizinha que latia até de madrugada, a ex-mulher lamuriosa sempre reclamando da pensão, a senhorinha do escritório que insistia em fazer água de batata ao invés de café de verdade. Sempre nas mesmas folhas verdes do caderno sem pauta que comprara especialmente para esse fim. Sempre o mesmo ritual: soltava desaforos em prosa, e mesmo verso quando se sentia inspirado, então arrancava a folha, dobrava cuidadosamente, e a guardava por alguns dias, até que a raiva passasse, para só então picotar as malditas, como se rasgasse a própria raiva, e as jogava fora.
Aquela semana não havia sido diferente. Após ouvir desaforos da chefe ninfomaníaca, sentou-se em seu cubículo e escrevera três folhas dos mais lindos xingamentos, quase todos impublicáveis. Falou sobre sua falta de capacidade de liderança, sua educação falha, seu reinado de ódio e terror em que tratava a todos os subordinados como lixo, além de flertar descaradamente com todos os eventuais entregadores da Fedex que vez ou outra passavam por ali, sendo motivo de piada o fetiche da dita cuja. E como sempre arrancou as folhas, dobrou-as meticulosamente e as jogou no fundo da gaveta, sabia que bastariam alguns dias para tudo voltar ao normal e depois que o stress sofrido passasse, picotaria e jogaria fora as folhas.
Enfim, era exatamente isso que faltava em sua gaveta: as terríveis folhas verdes, aquelas em que escrevera as verdades impronunciáveis sobre sua chefe. Suando frio e temendo o pior, saiu do cubículo e rumou para o bebedouro, a garganta estava seca, apertada num grito que ele sabia que nunca daria. Trêmulo encheu o copo descartável e o sorveu tal qual o náufrago que há dias não bebe água fresca. Nesse momento, como se fosse possível ficar mais pasmo, olhou o mural de frente ao bebedouro e o que viu o fez desejar que o chão se abrisse e o engolisse: eram as três folhas verdes, ainda com as marcas de dobra, organizadas uma ao lado da outra, escancaradas, expondo ele a toda espécie de vergonha.
Com certeza seria demitido, talvez até processado, seu segredo descoberto seria a causa de sua ruína. Nesse momento, em que já se via arrastando as correntes de uma malfadada prisão, sentiu uma mão suave em seu ombro. Sabendo ser esse o fim de tudo, virou-se lentamente. A voz sussurrou:
- Fui pegar um grampeador na sua gaveta, as folhas vieram juntas e caíram no chão, li sem querer. Estava ali tudo que sempre quis falar e não tive coragem. Não se preocupe, não contei a ninguém que foi você.
Ele ouvia a tudo isso como se escutasse uma piada de mau gosto, mas isso não foi o pior, chegou perto deles o que sabia da vida de todo mundo naquele lugar. Veio com ares de importância, como se tivesse descoberto o segredo para fazer chover no sertão. Conspirou:
- Estão sabendo da novidade? Estão dizendo por ai que a megera foi mandada embora, os donos leram a tal cartinha ai – falou apontando pra o mural, e segurando o incrédulo homem pelo braço continuou – mas o melhor você não sabe. Estão dizendo que quem vai ocupar o lugar dela é você. Parabéns cara!
Naquela mesma noite, já deitado na cama, repassando o dia em flashes, mal acreditando em tudo que lhe acontecera, ainda estava assustado demais, tão assustado que só conseguiu dizer um sim apertado quando lhe ofereceram o cargo da ex-chefe. A única coisa em que conseguia pensar era que agora, provavelmente, iria precisar de muitas folhas verdes.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

FIM


Descanse sua cabeça

Abra-a para que os sonhos venham

Esqueça o que aconteceu

Deixa o tempo apagar as marcas

Não de atenção demais

Nem sempre vale a pena

Sempre não existe

Tudo acaba, e como acaba é tudo o que podemos escolher

SOBRE INTOLERÂNCIA E POLÍTICOS


Essa semana vai ser daquelas...


Daquelas em que não consigo ouvir muitas abobrinhas e ficar de boca fechada sem soltar uma ironia. Cuidado, essa semana minha língua está afiadíssima. Nesses dias é que lembro que detesto gente que fala demais. Detesto gente que fala demais e não tem nada a dizer. Gente que fala demais, não tem nada a dizer e não sabe ouvir.


Pq tem gente que acha que por fazer comunicação social você tem que falar, falar, falar e falar! Não!!!! Um bom comunicador tem que, antes de tudo, saber ouvir. Nunca vou me esquecer de um político que, durante o intervalo de uma entrevista, ao achar que o sistema de vídeo e áudio estava desligado, começou a falar todas as falcatruas que fazia, se gabando, achando-se o mais esperto (assim como todo brasileiro que se preza, pois por aqui o que vale é ser esperto). Detalhe, o sistema de som não estava desligado, e a "entrevista" foi transmitida ao vivo para milhares de pessoas que tinham tv a cabo.


E o jornalista que conduzia a entrevista? Ele não falou nada, nem uma única palavra. Ele ficou sentado ao lado do político, prestando atenção educadamente a tudo que o outro falava, mas não fez uma única pergunta sequer. Deixou o sujeito se enforcar sozinho. Ele ouviu e é exatamente o que a maioria de nós devia fazer mais vezes: falar de menos e ouvir demais.