sábado, 2 de março de 2013

Minhas Haydées



Foram muitas as minhas Haydées, mas nenhuma tão única quanto a minha Haydée. Professora de Língua Portuguesa, cara fechada, brava até onde não podia mais. A escola em peso, incluindo funcionários, professores e administração, tremia sob a voz de trovão de Haydée. Mesmo assim, é dela que sinto mais saudades.

Não foi a única, várias outras professoras, com quem cruzei pelo caminho, deixaram suas marcas incontestáveis. A doce Sara, da 1ª série, que não me ensinou as primeiras letras, mas que revelou a nós, tímidos escritores, o segredo das palavras. A Nilma, tão calma e tímida que, além do nome, guardo pouquíssimas lembranças, somente sua voz aveludada. Até a professora Isabel (de quem eu morrida de medo!), uma senhora grande e carrancuda, que fez com que eu dormisse, até pouco tempo, com os ouvidos tampados com coberta, braço ou o que fosse, tudo por medo de que algum mosquito os invadissem durante o meu sono e deixassem ali as suas larvinhas (absurdo!). Mas até hoje, quando ouço o bater de asas de insetos no meu quarto à noite, quando estou quase pegando no sono, cubro, como por instinto, a cabeça. Isso faz com que eu pense muito no que vou falar para os meus pequenos. As professoras Rute e Yolanda (5ª e 6ª séries ), que me ensinaram o valor da nossa história, de tal modo e tão profundamente, que não tive dúvidas quando escolhi o curso ao chegar na faculdade pela primeira vez.

A primeira, e única, nota vermelha (de Matemática, é claro!), com a professora Sonia. A terrível marcou a prova de recuperação em um sábado de manhã! Passei a semana toda pensando em qual seria a desculpa que daria a minha mãe para sair de casa em pleno sábado de manhã: ir a igreja, não... Conhecíamos todos por lá e seria fácil ela descobrir que eu não tinha pisado no salão comunitário; ir até a casa da minha (até hoje) amiga Jocélia, mas às nove da manhã de um sábado? Não ia colar! Decidida a contar a verdade, o fiz aos prantos, na manhã da prova. Sou do tempo que ficar para recuperação era passível de uns bons tapas na bunda! Isso explica tanto desespero. Os tapas não vieram, para a aluna que sempre tirava boas notas, era caxias e perfeccionista desde criança, uma recuperação já era castigo suficiente. Mesmo assim, jurei, naquele dia, que esta seria a primeira e a última vez. E foi, até agora pelo menos.

A professora Fanny, que nos mostrou, lá na 8ª série, que a leitura era mágica e que podíamos, nós mesmos, sermos aqueles a tirar o coelho da cartola. Lembro-me até, e muito bem, da Cida, que será ainda por muito tempo, modelo do tipo de profissional que eu nunca serei. Mas, nunca houve ninguém como Haydée.

Lembro quando cheguei à Escola Josué, o Verdão, na 6ª série. Escola nova, apenas um amigo – o Lindomar, com que estudei junto da 1ª a 8ª série – e a reputação da besta fera chegou bem antes dela. Os novos colegas de sala sussurravam que aquele ano não tinha escapatória, o monstro nos encontraria e, provavelmente, devoraria nossas cabeças... e devorou!

Devorou nosso cérebro e o que colocou no lugar mudou o mundo do eixo. A nossa língua mãe, em todo seu esplendor reinou, absoluta, durante os três anos em que minha Haydée deixou que eu fizesse parte da vida dela. Sim, deixou! Sua influência era tamanha que, além de não dar aulas para as 5ª séries, era ela quem escolhia os alunos que comporiam a salas, as classes eram montadas segundo as indicações dela.

Mas que maravilhosos foram aqueles anos. Foram estes os anos que completaram a minha alfabetização. Foram estes os anos que determinaram que hoje dificilmente eu esqueça a grafia correta de uma palavra. Foram eles que me fazem ter certeza do emprego correto da gramática, mesmo que não lembre quase nenhuma regra. Foram anos decisivos.

Lembro-me que o último ano foi o pior de todos. No meio da empolgação da formatura (Haydée e Sonia conseguiram, de graça, a melhor boate para a nossa festa), havia a certeza de que a nossa mentora não estaria lá. Era conhecido de todo o Verdão que Haydée não ia a formaturas. Na época diziam que era porque ela não se importava, hoje tenho a certeza de que ela se importava além da conta e não aguentaria ver seus rebentos irem embora... Nós, da 8ª série A, também sabíamos e não pedimos que ela fosse. Mas chorávamos, conforme o dia se aproximava, pois era ela que queríamos que entregasse o nosso canudo. Mas, mesmo assim, não pedimos que ela fosse. Ouvir o não de sua boca seria pior que tudo. Ela sabia, nós sabíamos... teria que ser suficiente. Então nos calamos.

Como consolação, convidamos como nossa paraninfa a professora Fanny, pupila de Haydée. Ela era nossa professora de redação, exigência da matrona professora de Língua Portuguesa, visto que muitos ali fariam, pela primeira vez, o vestibulinho (fiz dois neste ano, para o Magistério e para Processamento de Dados, adivinha por qual optei...). Para que as aulas acontecessem, ela cedeu duas aulas por semana para Fanny, em troca, ela dava aulas de gramáticas para uma sala de 5ª série. Ela odiava, mas era um sacrifício que fazia por nós e o aceitamos.

No dia da formatura estada tudo tão lindo... as meninas de branco, os garotos de social! Estávamos acostumados a tênis e não salto alto. Nossos pais pareciam tão orgulhosos, assim como nossos professores. Estava tudo perfeito... quase perfeito. Na hora da entrega dos canudos, nossa sala, a primeira, engoliu o choro. Nossa festa não seria completa naquela noite.

Um pouquinho da 8ª A...
Qual não foi nossa surpresa, quando o mestre de cerimônias chamou o paraninfo da 8ª A. Foi quando vimos, foi quando a vimos. Rasgando o corredor e atravessando o salão com passos firmes, decididos, tão ela. Era a nossa querida Haydée. Ah, não teve jeito, nossa sala desabou em um soluço misto de emoção e alívio e juro, de pés juntos, que a nossa maior vontade era correr para ela num abraço coletivo gigantesco, mas bastou um olhar dela para nos manter no lugar. Nas duas lágrimas que escorreram por suas faces, quando foi ovacionada de pé por todo o salão, ela dizia: “Estou aqui por vocês!” E isso nos bastava. Não teve uma única pessoa naquele lugar que não se emocionou com a gente naquela noite.

Prefiro dizer que foi pela surpresa de Haydée que desmaiei, pouco depois de pegar o canudo de suas mãos, e não por fome, por ter passado o dia inteiro sem comer (aquele dia fiz a entrevista, segunda etapa do vestibulinho, para tentar uma vaga no Cefan).

Foi perfeito! Meus melhores amigos, meus melhores professores, meus pais e a nossa Haydée. O que mais querer? Apenas que o momento durasse para sempre. Durou uma noite e sempre me emociono ao me lembrar dela.

Hoje, depois de quase 20 anos, tudo que quero dizer a ela e a todos os professores que, em maior ou menor medida, compartilharam seu mundo comigo e fizeram toda a diferença na minha vida, é um grande e sonoro muito obrigada!

domingo, 7 de outubro de 2012

Dia de Reunião

Sala de reunião lotada. Olhos sonolentos, recém saídos do fim de semana, ainda pedindo pelo aconchego da cama quente que deixou para trás.
 
Segunda-feira, sete horas da manhã é pedir demais. Impossível que o cérebro trabalhe a todo pano. Ela mal conseguia abrir os olhos, quem dirá assimilar a enxurrada de informações de pessoas que supostamente (apenas supostamente) conheciam mais que qualquer um naquele lugar. Passou os olhos por todos os rostos da sala e, de repente, caiu em si: aquilo não tinha mais nada a ver com seus anseios. Desejava o mundo inteiro e ali, sentada, sentia-se tão presa, tão limitada.
 
Voou então. Saiu de si. Se o corpo jazia preso em uma cadeira, sua mente era livre. Tudo bem que sentia olhares que fuzilavam sua inércia perante todos os outros. Não se importava. Pensou em todos os filmes que ainda assistiria, em todos os livros por ler. Em todas as conversas que teria, nas músicas que ainda não conhecia... E, sem querer, lembrou que amava o que fazia, mas faltava-lhe a paixão dos tempos idos. Isso doía.
 
Voltou ao corpo. Aquietou-se. Voltou para dentro de si. Olhou para sua própria alma. Acarinhou-a. Buscou. Nada encontrou. Olhou em volta novamente, tudo continuava igual. Apenas ela mudara.

sábado, 1 de setembro de 2012

Última lágrima

O cheiro atinge as narinas sem nenhum pudor. Passa pelos corredores e bancadas puidas sem respeitar velhos ou crianças, doentes ou sãos. É uma mistura de produto de limpeza e sabão, com o leve toque agridoce de sangue, que deixa todos no local com expressão funesta.
 
Ao longe o som do choro doido de uma criança, isso, misturado com a tosse seca do velho ao seu lado, só fazia a situação piorar.
 
No fim do corredor uma enfermeira, muito bonita por sinal, cuidadosamente limpava manchas vermelhas de uma maca; apesar das luvas de borracha, teve certeza que aquelas mãos eram muito delicadas, tal qual era a beleza de seus gestos. Ficou encantado e não conseguia desviar os olhos daquela figura etérea, tão deslocada em meio ao caos. Seus movimentos suaves, o vai e vem das mãos, os cabelos sedosos caindo em cascata sobre o rosto, parecia fazer amor, mas os panos em suas mãos, antes alvos, agora gritavam com o vermelho vivo do sangue que o encharcava, não o deixava esquecer de onde realmente estava. E a lembrança não era nada agradável.
 
De repente, um turbilhão de pensamentos invadiu sua mente, sem cerimônia, sem permissão. O que estava fazendo deitado ali? Tentou se levantar, mas sentiu a cabeça girar. A verdade o apanhara de chofre e não estava certo de que queria se lembrar. Um telefonema, uma briga, as chaves da moto, o choro, a perda... os faróis e por fim, a dor. Desespero.
 
Olhou para os lados, procurando pela bela enfermeira, não a via mais. Tentou gritar, a voz não saia. Pela primeira vez teve medo. Não podia terminar daquele jeito, não depois das coisas horríveis que dissera a ela. Como tinha sido injusto.
 
Sentia o peito apertado, como se a mão de uma gigante lhe apertasse o coração, esmagando-o. Olhou em volta novamente, precisava de ajuda. Foi então que ouviu aquela voz, a mesma voz rouca e doce que, nos últimos três anos, sussurrava juras de amor em seu ouvido todos os dias. A mesmo voz que lhe disse a poucas horas que tinha acabado e que não a procurasse mais.
 
Sentiu as lágrimas escorrendo pelos olhos, encharcando o travesseiro. Não chorava pela dor quase insuportável, muito menos pelo medo que sentira instantes antes. O choro sentido era pela certeza de que perdera tudo que lhe era mais caro, a vida não vivida. Não suportou. Uma última lágrima escapou dos olhos já quase fechados. Agora sim, terminara.

sábado, 21 de abril de 2012

Romance Moderno

Se conheceram on line, tão comum e corriqueiro que nem causa mais espanto. Conversaram, combinaram e para o  msn migraram. Logo mais se encontraram. Não demorou muito se beijaram, se amaram. Na cama terminaram. E lá se fartaram, o desejo saciaram.

Mas depois de tudo, porém, palavras faltaram para dizer o que realmente pensavam sobre o sentiam na alma. Se era amor ou apenas paixão, nunca sequer cogitaram, definir o quanto se gostavam.

Então, um dia se afastaram. Tão rápido quanto se uniram, se desligaram. E foram para opostos lados, cada qual guardando consigo o que nunca falaram.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

FÉRIAS

Foi quando minha história se cruzou com tantas outras histórias e construímos, juntos, mais um pedacinho dela...
Era uma vez um porto. Dizia se que era um porto seguro. Diziam também que naquele lugar é que toda a história teria começado. Isso era mentira.
Certa vez, várias pessoas foram ao mesmo tempo para o porto. Elas eram muito diferente entre si: algumas pessoas chegaram sós, outras levaram outras consigo, mas achavam que não tinham nada em comum, mesmo assim, elas estavam todas ali. Olharam-se, mediram-se, isolaram-se, compartilharam o mesmo espaço por dias a fio. Foi então que algo incrível aconteceu: suas histórias se cruzaram com tantas outras histórias. E, de repente, eles a estavam escrevendo juntos.

Sem que ao menos se dessem conta disso, tudo mudou. Não estavam apenas vivendo no mesmo espaço, o estavam compartilhando. Passaram a importar-se uns com os outros. Mães se encontraram com outras esposas, que encontraram-se com filhos de outras mulheres, que se encontraram com outros irmãos e estavam felizes assim. Mas um certo sentimento de tristeza pairava sobre tudo: todos sabiam que nada daquilo iria durar. Mas mesmo assim, durante aqueles parcos dias tiveram momentos de sincera felicidade.


Conversas à beira da piscina, confissões ao pé da mesa. Sonhos e dores compartilhadas, noites em um hospital, a procura por algo que os ajudasse a guardar na memória o que estavam vivendo naquele momento. Havia os que confraternizavam ao som de músicas estranhas, outros se sacudiam freneticamente, já alguns procuravam os refúgios mais calmos do local. E foi assim, naturalmente, que velhos amigos tornaram-se mais amigos e que novas amizades tornaram-se importantes, laços foram criados e os antigos se fortaleceram...
E então, cada um seguiu o seu caminho. Cada um levando dentro de si um pedacinho do outro e deixando um pedaço de si. No fundo, o desejo era de que nada mudasse, mas todos sabiam que era impossível.

Como explicar que em tão pouco tempo algumas pessoas invadem nossas vidas, durante aquele período se tornam tão importantes e depois viramos as costas e vamos embora sem nem olhar para trás? Será que realmente não somos uma ilha?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

MEMÓRIAS

Só quem viu, dançou e cantou ao som desta batida sabe do que estou falando 
Ainda na onda de embalos de sábado à noite, os anos 80 chegaram coloridos, com muito brilho, ombreiras, calças coladas, mini saias e mangas bufantes. Sem falar nos acessórios, muitos acessórios, e a maquiagem excessivamente forte. Ainda que tenha ficado conhecida como a Década Perdida da América Latina, período caracterizado por grande estagnação econômica dos países ao sul do Equador, nenhum momento foi tão esfuziante como a década de 80 e por aqui não foi diferente.
O pior com certeza foram os cortes de cabelo, provavelmente poucos sentem saudades disso: aqueles cortes repicados sustentados a base de muito laquê e gel, potes e mais potes de gel! Lembro que minha mãe nessa época usava blush em creme, batom vermelho e pulseiras, brincos, anéis dourados. E olha que ela não era uma das mais exageradas. Definitivamente, não foi a época mais discreta!
A música disco dominava as paradas de sucesso, mas em casa ainda ouvíamos discos de vinil do Elvis Presley e Abba. Quem arrasava quarteirões mesmo era Prince, Duran Duran, Cyndi Lauper, Lionel Richie, George Michael, R.E.M, A-Ha, Beastie Boys, The Police, Phil Collins, The Pretenders. Mas eram Madonna e Michael Jackson os verdadeiros reis do pop. Juntos, influenciaram toda uma geração. No Brasil, as paradas de sucesso ficaram por conta de Blitz, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Ultraje a Rigor, RPM, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii, Ira!, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Capital Inicial, Camisa de Vênus, Plebe Rude, só citando alguns. O rock ia direto na veia na década de 80 e hoje fica claro que foram esses caras os responsáveis pela paixão irremediável de toda uma geração. Foi nessa década, também que perdemos Raul Seixas e Cazuza. É de oitenta a primeira edição do Rock in Rio e o nascimento do Heavy Metal (Yes!)
Vídeo Cassete?!?! Não tínhamos. Lembro de aguardar ansiosamente os filmes passarem na TV. Assim como me lembro até hoje do meu primeiro filme de terror - O Exorcista – meu pai foi obrigado a me fazer companhia, junto com a manta azul, com a qual eu cobria a cabeça toda vez que Regan torcia a dela. A manta já foi faz tempo, ficou o gosto pelos filmes B. Sexta-feira 13, O ataque dos Tomates Assassinos, Poltergeister, Boneco Assassino e a Coisa, são ícones da minha infância. Sessão da Tarde era parada obrigatória durante o dia, e não importava se estava passando de novo Conta Comigo (baseado no conto de Steven King), a cena das sanguessugas era sempre imperdível, mesmo que pela 99ª vez! Tubarão, Indiana Jones e Star Wars também reuniam a molecada em frente da telinha, com direito a pipoca e guaraná. Lembro de todas as crianças da rua fuzilando seus pais por conta da grande estreia de Lagoa Azul (um verdadeiro escândalo na época). Fiquei roxa de raiva quando descobri que a única coisa de Lagoa Azul era, realmente, uma lagoa muuuuuito azul. Qualquer novela das 8 de hoje, deixaria os cabelinhos loiro de Brooke Shields arrepiados.
Mas a noite o assunto ficava mais sério. Com o pai em casa, todos ficavam bem quietinhos para assistir ao Jornal Nacional. Foi nesse horário que vi o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim, a fome na Etiópia, o fim da Ditadura Militar, a eleição de Ronald Reagan, nos Estados Unidos e de Margareth Thatcher, no Reino Unido, o movimento Diretas Já, as primeiras eleições, a morte do recém eleito presidente Tancredo Neves, o governo de José Sarney, o plano Cruzado, inflação, Amapá e Rondônia virarem estados brasileiros. Foi também quando, pela primeira vez, ouvi a palavra AIDS, suas primeiras vítimas, a tão esperada Constituição. Na época, nada daquilo tinha muito significado para mim, mas eram acontecimentos decisivos para um país que desde 1964 vivia a sombra da Ditadura. O mundo estava mudando, eu nem percebia. Só hoje entendo o que foi a efervescência dos anos 80. Ainda bem que aos domingos tudo parava para vermos as palhaçadas, em horário nobre, do quarteto formado por Didi, Dedé, Mussun e Zacarias, era Os Trapalhões que entravam em cena.
Mas era de segunda a sexta que encontrávamos nossos heróis: era dia de Show da Xuxa. Caverna do Dragão, Thundercats, Liga da Justiça, As Aventuras do Super Man, além de Jaspion e Changeman (da extinta TV Manchete). Fui fã incondicional dos Ursinhos Carinhosos, Smurfs, Cavalo de Fogo e Punk, a Levada da Breca. Saudades dessa infância, saudade de ver crianças de verdade e não essas miniaturas de adultos que mal sabem brincar.
Não tínhamos videogame, só o riquinho do fim da rua tinha o privilégio, nem ficávamos na rua o dia inteiro. Nessa época, as mães ficavam em casa e os filhos não eram meros produtos de casamentos mal planejados. As famílias ainda seguiam o modelo tradicional (pai, mãe, filhos e o cachorro), não creio que essa mudança tenha sido de fato benéfica, ao menos não foi para as crianças. Ansiávamos por noites bem quentes, pois podíamos brincar na rua, sempre sob o olhar de um ou outro pai, e nos deliciávamos brincando de rouba bandeira, queimada, amarelinha, pula corda e, quando ficamos muito quietos, pode ter certeza que era o tal de “beijo, abraço, aperto de mão ou volta no quarteirão”, a brincadeira da vez. Eram os hormônios que timidamente começavam a se agitar. Muito timidamente mesmo! Nas noites mais frias, passávamos horas às voltas com o Jogo da Vida ou o Banco Imobiliário. E enquanto os meninos colecionavam carrinhos Bate e Volta e Comandos em Ação, as meninas brincavam com as Fofoletes e trocavam papéis de carta.(só a bem pouco tempo me desfiz dos meus). Mas juntava todo mundo para brincar de autópsia com o extraterrestre NEB ou de cinema com o Super Projetor de Desenhos, da Estrela. A propósito, nos anos 80, a Estrela dominava o mercado de brinquedos, todos de que me lembro eram dessa empresa. Sempre que vejo essa marca, viajo no tempo e volto a minha infância. Que vontade de voltar a ser criança que dá às vezes.
Mas criança de verdade, não esses arremedos de infância que vejo por ai, com cérebros bitolados, que não sabem nem comprar pão na padaria. Se eles fossem tele transportados para a minha infância, com certeza voltariam correndo de lá, aos berros. Provavelmente, sairiam a caça de um bom celular para “xingar muito no twitter” e quem sabe, se não estivessem ocupados demais tentado escapar do que, com certeza, parece um pesadelo, tirar uma foto para postar no Orkut, só assim alguém acreditaria que um dia, em algum lugar perdido no tempo, crianças, como as de hoje, brincavam de pé no chão, se encarapitavam em árvores a busca da pipa do grandão da rua de baixo e dividiam, no gargalo a mesma tubaína. Tudo isso sem medo de contrair uma terrível virose ou algo do tipo. Mas uma coisa é verdade, jamais nossas crianças conseguirão entender como foi bom ser criança naquele tempo...

domingo, 8 de maio de 2011

HILDA HILST

“Vontade de não dar sentido algum

às coisas, as palavras e à própria

vida. Assim como é a vida na

realidade ausente de sentido.”

Hilda Hilst



Poeta, dramaturga, ficcionista... Hilda Hilst foi várias em uma. Considerada pela crítica uma das mais influentes escritoras do século XX, segundo o crítico Anatol Rosenfeld “pertence ao raro grupo de artistas que conseguiu qualidade excepcional em todos os gêneros literários que se propôs - poesia, teatro e ficção. Uma mulher bela, sedutora, amante da liberdade, moderna. Com seus textos, o real e imaginário se fundem, o jogo de palavras fascina. O há que de mais belo e chulo em nossa língua, em suas mãos, tem ares de genialidade. As usa com a maestria reservada a poucos.

Hilda nasceu em 1930, na cidade de Jaú. Viveu em Santos, São Paulo. Formou-se em Direito em 1952, mas largou a profissão por total incompatibilidade, correu o mundo. Optou por viver das palavras.

Seu primeiro livro – Presságios – foi publicado em 1950 e chamou a atenção da crítica. Não parou mais. De 1950 até 1993 foi de intensa produção literária. Sua obra foi traduzida para meia dúzia de línguas e fez sucesso no mundo todo. Hilda conseguiu tirar do seu leitor todas as reações, do amor ao ódio, terror, medo. Viu seu público e crítica escandalizados com o Caderno Rosa de Lori Lamby, primeiro livro de sua trilogia erótica - lançado em 1990 e adaptado para o cinema e teatro - em que nos confronta com a nossa própria sexualidade.

Hilda Hilst faleceu em 2004, na cidade de Campinas.

Apresentado à profª Regina Amélio, para a disciplina Cultura Literária II

terça-feira, 8 de março de 2011

Só

E veio de novo... num repente... Aquela sensação de perda, um buraco. Ele pensou no que poderia ter feito de tão ruim, pois todos os aqueles com quem havia um dia se importado, um dia  amado, simplesmente sumiam na neblina.

E então entendeu que seu destino, por mais triste, talvez fosse ser sozinho. Mas naquele momento, não tinha forças, sequer para erguer a cabeça e encaram a vida que se descortinava a sua frente. Sentiu-se sem vontade de seguir adiante, pois havia tido um breve vislumbre do futuro, e esse futuro não era bom. Ela não estava ao seu lado.

Por mais que soubesse que o mundo continuaria, não se sentia capaz de acompanhá-lo, não sem ela. Não de novo, mesmo depois de tanto tempo. Não quando ainda, ao ouvir aquela música, a mesma que os embalara por tantas noites, aquela que ela lhe havia apresentado e sussurrado em seu ouvido, ainda lhe arrancava lágrima traiçoeiras. Então toda força se foi, não tinha mais nada... Por que não pediu que ficasse, que não o abandonasse? Por que não confessou que a amava? Por que havia deixado-a partir, se sabia que não poderia viver sem ela?

Nada disso importava mais. Está era sua última noite sozinho... Sucumbira...

sábado, 11 de dezembro de 2010

O PRIMEIRO A GENTE NUNCA ESQUECE

Fuçando por aqui, organizando materiais do primeiro ano da faculdade de Jornalismo (encerrado o ano, é hora de organizar as coisas), encontrei o primeiro texto jornalístico (de ficção) que escrevi. Uma espécie de primeiro passo. Bom recordar o início de tudo...


TRAGÉDIA EM VERONA
Casal é encontrado morto após tentativa de fuga
Foram encontrados mortos dois jovens, na noite de ontem, num vilarejo próximo a Verona. As vítimas, Julieta Capuleto, 16, e Romeu Montecchio, 17, eram de famílias rivais, que duelavam, havia anos, pelo mercado imobiliário.
Segundo as autoridades responsáveis pelo caso, Romeu apresentava sinais de envenenamento e Julieta apunhalou-se. Apesar do evidente suicídio, as autoridades não descartam a possibilidade de homicídio.
Amigos das vítimas contaram que os dois conheceram-se em uma festa, oferecida pela família dela. Deste então, encontravam-se as escondidas. Criados da casa dos Capuletos, dizem que, desde esse dia, era comum verem Romeu, à noite, na varanda de Julieta. “Eles estavam apaixonados e tinham planos de fugir em breve”, afirmou a ama de Julieta.
Essa não é a primeira vez que as famílias Montecchio e Capuleto são alvo de atenção na cidade de Verona. Há poucos meses, Teobaldo, primo de Julieta, foi acusado de assassinar, durante uma briga, o jovem Mercúcio, primo do príncipe de Verona e amigo íntimo da família Montecchio. Poucos dias depois, Teobaldo foi encontrado morto. Apesar de especulações de que Romeu estaria envolvido, nada foi provado.
Testemunhas afirmaram que Julieta e Romeu encontraram-se várias vezes com Frei Lourenço, que foi interrogado esta tarde. Em nota oficial a imprensa, em seu depoimento, Frei Lourenço negou ter conhecimento sobre o envolvimento dos jovens, mas acabou confessando que entregou a Julieta um forte elixir para simular sua morte, dessa forma, ela poderia fugir com Romeu. O Frei ainda afirmou que enviou um mensageiro para avisar o rapaz do ocorrido.
De posse com estas novas informações, o delegado acredita que o mensageiro nunca chegou até Romeu, que julgando que sua amada estivesse morta, ingeriu grande quantidade de um forte veneno adquirido mais cedo com um boticário famoso na cidade. Julieta ao acordar, descobriu que Romeu não a esperou e usando o punhal que se encontrava na bainha dele, esfaqueou-se. Ainda assim, o Frei poderá ser indiciado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
O príncipe de Verona declarou, consternado, “jamais história alguma houve mais dolorosa, do que a de Julieta e a do seu Romeu.” As famílias das vítimas não quiseram se pronunciar.
Texto escrito a pedido do prof. Pedro Courbassier, durante a aula de "Mercado e Formação do Profisisonal de Jornalismo"

domingo, 7 de novembro de 2010

O ENCONTRO


Acendeu um cigarro. Encostou-se no muro, escondida pelas sombras para que ninguém a visse. E ali, protegida dos olhares curiosos, pôs-se a pensar... Há tempos recusava a encarar a terrível verdade: depois de mais de quatro anos ainda encontrava-se total, e irremediavelmente, apaixonada por ele. Triste constatação a se fazer depois de tanto tempo.

O encontro era inevitável. Não havia como se esconder, a não ser que fugisse as pressas para a Sibéria, mas não se sentia tão disposta assim a enfrentar o frio siberiano. A grande e incontestável verdade é que ela queria. Sim, ela queria.

É claro que jamais admitiria tal insanidade, afinal, quem quer ficar cara a cara com o amor perdido? Mas essa era a razão dos tremores que estremeciam seu corpo de baixo para cima. Ela queria vê-lo, queria estar no mesmo ambiente que ele, respirar o mesmo ar. Queria a chance de tocar, nem que fosse brevemente, sua mão e, no intervalo de poucos segundos, olhá-lo nos olhos, a dizer: ti espero, sempre.

Apagou o cigarro na sola do tênis. Ergueu a cabeça, jogou os cabelos para trás. Inspirou com dificuldade. Se faria mesmo isso, que fosse com o mínimo de dignidade.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

DILMA X SERRA



O segundo turno está chegando e, ao invés de ver os presidenciáveis debatendo propostas, o eleitor está sendo obrigado a acompanhar uma verdadeira guerra entre partidos e candidatos que em nada contribuiu para o debate político, para a democracia e muito menos o ajuda a fazer a melhor escolha. Pensando nisso, o SinergiaK compilou as principais propostas de Dilma Rousseff e José Serra, para que você, eleitor, tenha certeza do que está fazendo.


INFRAESTRUTURA

DILMA - Expansão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) reunindo mais investimentos, tanto do setor público quanto privado, subsidiando assim melhorias em rodovias, portos e aeroportos.


SERRA - Aposta em concessões para as rodovias, ferrovias e aeroportos.


IMPOSTOS

DILMA - Pretende reduzir a zero impostos sobre investimentos, sobre folha de pagamento, mas não deixou claro como irá fazer isso. O ICMS terá uma legislação nacional e não por estado, como é hoje.


SERRA - Pretende alavancar o crescimento diminuindo impostos sobre folha de pagamento e energia elétrica. Irá reduzir impostos sobre a cesta básica, saneamento básico, medicamentos e combustível para ônibus. Implantará o modelo da Nota Fiscal Paulista nos demais estados brasileiros.


POBREZA

DILMA - Fortalecerá o programa Bolsa Família, implantará novos programas sociais, com o objetivo de erradicar a pobreza até 2014.


SERRA - Ampliará a Bolsa Família levando-a para 27 milhões de famílias. Criará o 13º salário para o benefício.


DESEMPREGO

DILMA - Não apresentou propostas para combater o desemprego. Diz que continuará a incentivar o consumo interno e práticas que facilitem a legalização de pequenos negócios.


SERRA - Promete a criação de 20 milhões de empregos até 2020, além disso, tirará 5 milhões de brasileiros do trabalho informal e criará cursos profissionalizantes.


Nem Serra, nem Dilma apresentaram propostas para diminuir a jornada de trabalho ou sobre a flexibilização das leis trabalhistas, que tornaria mais fácil o processo de admissão e demissão de empregados.


EDUCAÇÃO

DILMA - Criação de escolas de ensino técnico em cidades com mais de 50 mil habitantes, expansão de vagas no ensino infantil, construção de 6 mil creches e pré-escolas, 7% do PIB (Produto Interno Bruto) será investido na Educação.


SERRA- Ampliação da rede de ensino técnico, criação de 1 milhão de vagas do Protec (bolsa similar ao ProUni), dois professores em salas de alfabetização.


Nenhum dos candidatos fez propostas claras no que se refere a reajuste salarial para profissionais da Educação. A tendência é que Dilma siga os passos de Lula, oferecendo um complemento aos municípios que provarem não ter condições de oferecer bons salários. Já Serra poderá diminuir o tempo do professor em atividades fora de sala.


SEGURANÇA

DILMA - Expansão das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantado em favelas do Rio de Janeiro, levando o programa para outros municípios.


SERRA - Criação de um ministério específico para a segurança, o que pressupõe um maior envolvimento do governo federal em resolver os problemas nessa área.


SAÚDE

DILMA - Criação de 500 postos de Pronto Atendimento (para casos de emergência), em que a União assumirá 50% dos custos, a outra metade fica a cargo de estados e municípios. Investirá na produção e distribuição de medicamentos.


SERRA -Criação de 154 Ambulatórios de Medicina Especializada e clínica para tratamento de usuários de drogas.


IMPRENSA

Tanto Serra quanto Dilma acreditam que a liberdade de imprensa deve ser mantida


Agora não tem mais desculpa. Leia atentamente as propostas dos presidenciáveis e vote consciente. Politize-se!

Postado inicialmente no blog Sinergia K (http://sinergiak.blogspot.com/), por Gisele Gutierrez

sábado, 9 de outubro de 2010

SERENATA


Dobrou a esquina e seguiu direto ao seu destino antes que a coragem o abandonasse. Há dias vinha ensaiando e não podia esmorecer agora. No fim da rua, dois rapazes com olhos miúdos de sono. Já era tarde.


Olhou para a Lua, procurando pela inspiração quase perdida. Qual não foi sua surpresa, ao descobrir que esta se escondeu atrás das nuvens. Se nem a mãe dos amantes estava por ele, como prosseguir?


Quando deu por si, já estava a porta dela. Violão em punho. Coração aos pulos. Suspirou. Deu meia volta e fugiu.


Na janela, um par de olhos afugentava uma lágrima.


Texto escrito na avaliação de Comunicação e Expressão

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PARA SEMPRE, VINCENT...

Gênio desajustado, homem incompreendido, o artista maldito. Ridicularizado em vida, teve em morte o reconhecimento tão esperado: é aclamado como o maior artista de todos os tempos.


Vincent Willen van Gogh sofreu como ninguém as agruras da vida. A alma do artista, sensível por definição, sofreu de amor, enfrentou a miséria e viu sua obra desvalorizada. Van Gogh vendeu seu primeiro quadro depois de morto. A loucura foi sua mais fiel companheira, a única mulher que talvez o tenha amado de verdade, foi por ela que decepou a própria orelha – a quem deu de presente a uma prostituta; o suicídio, a única saída.

Foi com ele que o expressionismo deu seus primeiros passos, foi com ele que as cores explodiram na tela, mostrando ao mundo sua alma atormentada. "Procuro exprimir as mais terríveis paixões humanas. Quero pintar o retrato das pessoas como eu as sinto e não como eu as vejo", dizia o artista. E ele conseguiu, foi com van Gogh, que a arte se tornou amante da emoção.

Trabalho de História da Arte II - EXPRESSIONISMO. Texto de Gisele Lourenço. Narrado por Rogerio Calamante

sábado, 28 de agosto de 2010

FOLHAS VERDES

Mal sabia ele o que estava para acontecer. Provavelmente se soubesse não teria nem se levantado da cama naquele dia fatídico. Mais tarde, ao se lembrar do ocorrido, estremeceria a tal ponto que se sentiria doente.

Tudo começou quando chegou ao escritório de contabilidade onde trabalhava há mais de dez anos e encontrara a segunda gaveta de sua mesa aberta. Não, não estava apenas entreaberta, estava escancarada, mostrando a quem quisesse ver o seu conteúdo. Estarrecido aproximou-se e, com medo do que pudesse não encontrar, inspecionou seu conteúdo. A princípio não sentiu falta de nada. Foi quando, sob um olhar mais atento, percebeu que as folhas verdes, em que escrevera na semana passada, não estavam no fundo da gaveta, lugar a que foram relegadas depois do acesso de fúria.

Ele sempre fora assim, um homem de poucas palavras, além de não ter boca para nada. Engolia os sapos da vida com resignação paciente, algo que na verdade lhe fazia mais mal do que bem. A única coisa que fazia sentido para ele eram os números, a quem se dedicava, tal como um amante atencioso, por toda sua vida. Após um casamento arruinado e anos de terapia sem conseguir os resultados esperados, que seria literalmente soltar o verbo, foi apresentada a ele a única solução que talvez lhe trouxesse um pouco de alento e menos dores estomacais: escrever. Escrever tudo que gostaria de dizer mas que lhe faltavam palavras para dar fim a sua agonia.
E assim, desde esse dia, deu-se a escrever sobre todo e qualquer ocorrido que lhe chateasse. Escrevia injúrias sobre o síndico, o porteiro do prédio, a cachorra histérica da vizinha que latia até de madrugada, a ex-mulher lamuriosa sempre reclamando da pensão, a senhorinha do escritório que insistia em fazer água de batata ao invés de café de verdade. Sempre nas mesmas folhas verdes do caderno sem pauta que comprara especialmente para esse fim. Sempre o mesmo ritual: soltava desaforos em prosa, e mesmo verso quando se sentia inspirado, então arrancava a folha, dobrava cuidadosamente, e a guardava por alguns dias, até que a raiva passasse, para só então picotar as malditas, como se rasgasse a própria raiva, e as jogava fora.
Aquela semana não havia sido diferente. Após ouvir desaforos da chefe ninfomaníaca, sentou-se em seu cubículo e escrevera três folhas dos mais lindos xingamentos, quase todos impublicáveis. Falou sobre sua falta de capacidade de liderança, sua educação falha, seu reinado de ódio e terror em que tratava a todos os subordinados como lixo, além de flertar descaradamente com todos os eventuais entregadores da Fedex que vez ou outra passavam por ali, sendo motivo de piada o fetiche da dita cuja. E como sempre arrancou as folhas, dobrou-as meticulosamente e as jogou no fundo da gaveta, sabia que bastariam alguns dias para tudo voltar ao normal e depois que o stress sofrido passasse, picotaria e jogaria fora as folhas.
Enfim, era exatamente isso que faltava em sua gaveta: as terríveis folhas verdes, aquelas em que escrevera as verdades impronunciáveis sobre sua chefe. Suando frio e temendo o pior, saiu do cubículo e rumou para o bebedouro, a garganta estava seca, apertada num grito que ele sabia que nunca daria. Trêmulo encheu o copo descartável e o sorveu tal qual o náufrago que há dias não bebe água fresca. Nesse momento, como se fosse possível ficar mais pasmo, olhou o mural de frente ao bebedouro e o que viu o fez desejar que o chão se abrisse e o engolisse: eram as três folhas verdes, ainda com as marcas de dobra, organizadas uma ao lado da outra, escancaradas, expondo ele a toda espécie de vergonha.
Com certeza seria demitido, talvez até processado, seu segredo descoberto seria a causa de sua ruína. Nesse momento, em que já se via arrastando as correntes de uma malfadada prisão, sentiu uma mão suave em seu ombro. Sabendo ser esse o fim de tudo, virou-se lentamente. A voz sussurrou:
- Fui pegar um grampeador na sua gaveta, as folhas vieram juntas e caíram no chão, li sem querer. Estava ali tudo que sempre quis falar e não tive coragem. Não se preocupe, não contei a ninguém que foi você.
Ele ouvia a tudo isso como se escutasse uma piada de mau gosto, mas isso não foi o pior, chegou perto deles o que sabia da vida de todo mundo naquele lugar. Veio com ares de importância, como se tivesse descoberto o segredo para fazer chover no sertão. Conspirou:
- Estão sabendo da novidade? Estão dizendo por ai que a megera foi mandada embora, os donos leram a tal cartinha ai – falou apontando pra o mural, e segurando o incrédulo homem pelo braço continuou – mas o melhor você não sabe. Estão dizendo que quem vai ocupar o lugar dela é você. Parabéns cara!
Naquela mesma noite, já deitado na cama, repassando o dia em flashes, mal acreditando em tudo que lhe acontecera, ainda estava assustado demais, tão assustado que só conseguiu dizer um sim apertado quando lhe ofereceram o cargo da ex-chefe. A única coisa em que conseguia pensar era que agora, provavelmente, iria precisar de muitas folhas verdes.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

FIM


Descanse sua cabeça

Abra-a para que os sonhos venham

Esqueça o que aconteceu

Deixa o tempo apagar as marcas

Não de atenção demais

Nem sempre vale a pena

Sempre não existe

Tudo acaba, e como acaba é tudo o que podemos escolher

SOBRE INTOLERÂNCIA E POLÍTICOS


Essa semana vai ser daquelas...


Daquelas em que não consigo ouvir muitas abobrinhas e ficar de boca fechada sem soltar uma ironia. Cuidado, essa semana minha língua está afiadíssima. Nesses dias é que lembro que detesto gente que fala demais. Detesto gente que fala demais e não tem nada a dizer. Gente que fala demais, não tem nada a dizer e não sabe ouvir.


Pq tem gente que acha que por fazer comunicação social você tem que falar, falar, falar e falar! Não!!!! Um bom comunicador tem que, antes de tudo, saber ouvir. Nunca vou me esquecer de um político que, durante o intervalo de uma entrevista, ao achar que o sistema de vídeo e áudio estava desligado, começou a falar todas as falcatruas que fazia, se gabando, achando-se o mais esperto (assim como todo brasileiro que se preza, pois por aqui o que vale é ser esperto). Detalhe, o sistema de som não estava desligado, e a "entrevista" foi transmitida ao vivo para milhares de pessoas que tinham tv a cabo.


E o jornalista que conduzia a entrevista? Ele não falou nada, nem uma única palavra. Ele ficou sentado ao lado do político, prestando atenção educadamente a tudo que o outro falava, mas não fez uma única pergunta sequer. Deixou o sujeito se enforcar sozinho. Ele ouviu e é exatamente o que a maioria de nós devia fazer mais vezes: falar de menos e ouvir demais.

terça-feira, 15 de junho de 2010

COMPREENDER OU SIMPLESMENTE LER?


Já nascemos em um mundo letrado. Provavelmente não conseguiríamos imaginar um mundo onde a palavra escrita não fizesse parte do nosso cotidiano. A linguagem, seja ela formal ou coloquial, é imprescindível hoje para nos sentirmos inseridos na sociedade. Ir ao banco retirar um parco pagamento pode se transformar numa verdadeira luta de titãs se você não possui familiaridades com a linguagem.


Essa é uma situação bastante comum até. As filas do caixa eletrônico dos bancos é o melhor exemplo. Geralmente os atendentes estão sempre ocupados atendendo um ou outro cliente, não são raras as vezes que se forma fila a espera da ajuda destes. Outro dia me peguei observando uma dessas filas e fiquei intrigada: não eram apenas idosos (que pensamos que tem mais dificuldade com essas tecnologias), havia muitas pessoas jovens na fila esperando ajuda. E fiquei pensando que, no mundo de hoje, onde as palavras saltam dos outdoors diretamente no nosso colo, as pessoas não sabem o que estão lendo. Elas simplesmente não entendem o que aquele monte de palavras juntas significa.


Temos hoje uma orla de pessoas alfabetizadas, muitas delas em cursos superiores, mas não temos pessoas letradas e isso é muito grave. Classifica-se como alfabetizado o indivíduo que sabe ler e escrever. Ponto. Simples assim. Agora, letrado é aquele que sabe usar de forma competente e freqüente a leitura e a escrita, ou seja, ele sabe o que está escrevendo, por que está escrevendo, para quem, e faz isso de maneira exemplar.


Preocupa-me hoje ver tão poucas pessoas letradas. A maioria das pessoas, na verdade, nem sabe o que está acontecendo ao seu redor. O incrível é que, com as facilidades do mundo moderno, ser letrado não deveria ser realmente um problema. Ou será que foi exatamente isso que tornou as pessoas mais burras?

sábado, 22 de maio de 2010

Vácuo


Cai no buraco escuro de seu silêncio e me perguntei: por que ainda insisto nas perguntas, se já sei de cor todas as respostas? As palavras contidas, os desejos reprimidos, reprimíveis. Escapando pelas frestas da boca que cala, que não ousa.


Tudo acaba nesse vazio que nós mesmos criamos. O silêncio é a única coisa que tem para me oferecer, mas não é, nem de longe, o que eu quero, muito menos o que preciso.
"Pior que uma voz que cala - é um silêncio que fala"
(Desconhecido)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eu Odeio Futebol. Mas...

Quem me conhece sabe: odeio futebol, não torço p nenhum time e nem tenho paciência para acompanhar um jogo por intermináveis 90 minutos. Mas....



Foi só os Filhos da Pauta colocarem as chuteiras e entrarem em campo, que virei torcedora desde criancinha!!!



Bruno, Gui, Le, Felipe, Ricardo, Thales e o grande Magister Rogério: Vcs arrasaram. A vitória ou a derrota é um mero detalhe.

domingo, 9 de maio de 2010

Porque Jornalismo?

Há dois anos decidi que faria outra graduação. Algo parecido com promessa de fim de ano... Estudar sempre foi minha maior paixão e retornar a faculdade parecia algo lógico. Mas que curso fazer?

Fiz Magistério. Tenho Licenciatura Plena em História, disciplina pela qual sou totalmente apaixonada. Terminando a faculdade, comecei a trabalhar com Ensino Fundamental, nível I, e por conta disso fiz duas especializações Lato Sensu, a primeira em Alfabetização e a outra em Pedagogia da Inclusão, confesso que não gostei muito dessa. Ensinar é algo muito gratificante, amo o que faço, mas esse mundo começou a ficar pequeno demais para mim. De repente me vi, com quase trinta anos, com estabilidade profissional e financeira e... insatisfeita. Eu queria mais.

A opção lógica aos profissionais na minha área de atuação, seria fazer Pedagogia, com ênfase em Gestão Escolar, ao menos é o que todas as professoras que conheço fazem ao optar por uma segunda graduação. Mas esse curso é muito chato! Além disso, a parte de Gestão não me encanta em nada, assim como a Coordenação Pedagógica. Meu negócio é estar onde as pessoas estão e não numa sala isolada, lendo relatório.

Decidi que faria algo que não estivesse ligado a Educação. Essa segunda faculdade seria por puro prazer. A princípio pensei em cursar Turismo ou Fotografia. Turismo por que adoro viajar, criar roteiros, procurar lugares interessantes, colocar meia dúzia de coisas dentro de uma mochila e ir... Mas quando tentei me ver como guia turística, foi um desastre, ficava pensando nos guias made in CVC, com aquele uniforme amarelo gema e piadinhas prontas. Não conseguia me sentir guia.

Fotografia é um hobbie que cultivo há alguns anos, gosto muito da parte de edição de imagem, criação de álbuns e até sei uma coisinha ou outra. Visualizei-me fotógrafa, a primeira imagem que me veio à cabeça foi festa de aniversário de criança. Não preciso dizer que desanimei, afinal por que transformar em tortura algo que me dá prazer?

Direito, Web designer, engenharia mecatrônica... Uma a uma fui descartando curso atrás de curso. Eu procurava algo que estivesse escrito meu nome em letras garrafais neon rosa.
Foi quando me deparei com Jornalismo e comecei a pensar na ideia, a pesquisar sobre o assunto, as possibilidades eram infinitas, um leque de opções ali, ao meu dispor. Foi então que comecei a me ver Jornalista, e parecia que sempre tinha sido assim. Gosto de escrever e apesar de não ter experiência com texto jornalístico escrevo razoavelmente bem; gosto de ler, adoro pesquisar, descobrir coisas, tento sempre me interar sobre qualquer assunto que me interessa antes de falar sobre ele, além disso, sou uma ótima ouvinte, não sei exatamente por que, mas as pessoas se abrem comigo.

Não sei ainda se é isso mesmo, não tenho certeza de muitas coisas na verdade, mas pensar em tudo que posso fazer me empolga, algo que estava faltando no meu dia a dia. Espero tudo desta profissão, o que é bom e o que é ruim, afinal nem tudo são flores, e é exatamente isso que faz a diferença no final.

Não quero mudar o mundo ou as pessoas, seria pretensão demais, além disso, ninguém tem esse poder, as mudanças são opções individuais, se escolhe mudar uma postura ou não. O que posso fazer é oferecer ferramentas para que essa mudança aconteça. É isso que espero fazer enquanto jornalista.